"Você está ficando velho e vai perder o grande baile da maioridade africana." Assim se dirigiu o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, ao vocalista da banda de rock U2 e ativista político, Bono Vox, ao saber que ele não iria à Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. O cantor relatou o episódio em artigo publicado no dia 24 de abril no jornal Folha de S. Paulo. É dessa forma - quase como um rito de passagem para o mundo desenvolvido - que boa parte da população sul-africana e, em especial, suas lideranças políticas, encaram a realização do mundial de futebol no País.
Tanto que poucos deram bola para as estimativas pessimistas relativas ao número de visitantes estrangeiros no País no período do torneio. Quarenta e oito dias antes do pontapé inicial do jogo de abertura entre África do Sul e México, em Johanesburgo, o presidente da Fifa, Joseph S. Blatter, convocou a imprensa para uma entrevista coletiva na sede da entidade, em Zurique, e declarou que a Copa seria um sucesso. Deixou, porém, um alerta: "(...) ninguém pode garantir que tudo correrá perfeitamente".
A contradição nas declarações do dirigente é compreensível. Todos os preparativos para o mundial foram marcados pelos contrastes que caracterizam a nação sul-africana. Há deficiências graves de transporte público - a população ainda se locomove basicamente em peruas (vans) e há pouquíssimos ônibus, trens ou metrô. Os preparativos também foram marcados pelo atraso no cronograma das obras, tanto dos estádios quanto da infraestrutura necessária à Copa. Além disso, a previsão orçamentária simplesmente explodiu. Se o evento será bem-sucedido, é cedo para dizer. Mas a preparação dos sul-africanos acabou e traz uma série de lições para quando chegar a vez do Brasil, em 2014.
Custo alto
O Portal 2014 (www.copa2014.org.br), que conta com apoio do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva), informa que o orçamento divulgado pelo governo sul-africano de 8,4 bilhões de rands (cerca de R$ 2,15 bilhões) para a construção de estádios pulou para cerca de 16 bilhões de rands (R$ 4,15 bilhões), segundo números oficiais das províncias que sediarão a Copa. As autoridades culpam as greves e a desvalorização da moeda local como causas para o estouro nos custos.
Todos esses problemas contrastam com a excelente qualidade de estádios como o Soccer City, em Johanesburgo, e o Green Point Stadium, na Cidade do Cabo (Cape Town). Vinte e dois profissionais da construção civil que visitaram a África do Sul, entre os dias 10 e 18 de abril, para conferir os preparativos da Copa (veja a seguir fotos e textos sobre a missão), saíram encantados com a qualidade das obras. "Ver de perto o que eles conseguiram realizar renova minhas esperanças para 2014 no Brasil", afirmou José Roberto Bernasconi, presidente do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva) de São Paulo, que acompanhou a missão, organizada pelo SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) e acompanhada pela reportagem da Construção Mercado. Para conferir as declarações de Bernasconi, assista a seguir vídeo da cobertura.
O Soccer City, por exemplo, possui capacidade para 90 mil espectadores, consumiu 80 mil m3 de concreto e 7,1 mil toneladas de aço estrutural. A reforma, ampliação e modernização do antigo estádio, que abrigava 40 mil assentos, custou cerca de US$ 430 milhões ao governo. O Green Point Stadium, na Cidade do Cabo, para 68 mil pessoas, não fica atrás. Vários profissionais brasileiros consideraram o acabamento do estádio, cujo desenho remete a um chapéu zulu, ainda melhor do que a arena de Johanesburgo. Não à toa. Segundo o Portal 2014, o orçamento inicial do estádio da Cidade do Cabo pulou de 1,2 bilhão de rands - algo como R$ 307 milhões -, para 4,5 bilhões de rands ou cerca de R$ 1,15 bilhão. Ou seja, quase quatro vezes mais caro que o previsto.
Construção encolhe
O curioso é que, mesmo com tantos gastos - a quantidade de obras viárias em execução nos arredores das grandes cidades ainda chamava a atenção menos de dois meses antes da Copa -, a indústria da construção civil sul-africana atravessa um momento delicado. De acordo a Safcec (The South African Federation of Civil Engineering Contractors), entidade que reúne as construtoras de obras públicas do país, a despeito dos preparativos para a Copa, o setor decresceu 10% em 2009 e deve encolher mais 25% em 2010. Os construtores brasileiros que visitaram a entidade ficaram boquiabertos. "Isso vai provocar uma quebradeira geral", sussurrou um dos profissionais presentes.
Os culpados, segundo o diretor-executivo da entidade, Henk Langenhoven, são a crise financeira mundial, a ausência de capacitação técnica dos contratantes de obras públicas, os baixos investimentos em infraestrutura - cujas maiores realizações ainda remetem à década de 70 - problemas com marcos regulatórios e a insegurança jurídica para os investidores. "O governo tem muito receio das propostas que vêm do setor privado", afirma Langenhoven. De fato, mesmo para a realização da Copa, o investimento foi praticamente todo governamental. O diretor da entidade acredita que são remotas as chances de um programa de privatizações emplacar na África do Sul. "Mas temos expectativas em relação às concessões e parcerias público-privadas."
Ao examinar os problemas vivenciados pelas empresas de obras públicas, fica claro que os entraves e as virtudes da África do Sul revelam grande semelhança com a realidade brasileira. A despeito dos problemas institucionais e jurídicos, os dois países contam, por exemplo, com bons profissionais de engenharia civil e arquitetura e empresas de projeto e construção competentes, capazes de lidar com obras complexas, cronogramas desafiadores e toda a sorte de imprevistos.
Exigências da Fifa
Uma experiência sul-africana interessante foi a criação de um grupo multidisciplinar autodenominado On the Ball Consortium, formado por dois escritórios de arquitetura (Luyanda Mpahlwa Design Space África e Ruben Reddy Architects), uma empresa de engenharia de estruturas (Technoburo Technical Services) e uma gerenciadora com ênfase em engenharia de custos (tmtj Consulting Gauteng). O consórcio prestou consultoria para os comitês locais responsáveis pela construção ou ampliação dos estádios Ellis Park e Soccer City (Johanesburgo), Loftus Versfeld (Pretoria) e Free State (Bloemfontein).
O trabalho desenvolvido pelo pool incluiu a análise e interpretação da lista de exigências técnicas da Fifa, uma pesquisa para a seleção de especialistas estrangeiros nas áreas de elétrica e eletrônica, o estabelecimento de contatos com a indústria local e estrangeira para o fornecimento de insumos, além do acompanhamento físico-financeiro das obras. "Cada comitê local tomava decisões com base em nossas análises e recomendações", afirma a líder do consórcio, Moira Tlhagale, da tmtj Consulting Gauteng.
Uma das principais preocupações do grupo consistia em garantir, além do estádio e da infraestrutura de apoio, os espaços solicitados pela Fifa para atender à imprensa e aos convidados VIP. Para se ter uma ideia do que isso significa, a entidade exigiu uma área mínima de entorno de 220 mil m2 no Soccer City, em Johanesburgo. Trata-se do mesmo problema que enfrentou o estádio do Morumbi, do São Paulo Futebol Clube, para sediar o jogo de abertura do mundial em 2014. Com a diferença de que o estádio sul-africano não se localiza em uma área tão urbanizada quanto o Cícero Pompeu de Toledo.
Vantagem brasileira
Um dos maiores problemas enfrentados pelo Comitê Organizador da Copa da África do Sul, que ganhou repercussão internacional, foram as constantes greves nos canteiros dos estádios. Nesse ponto, o diretor da Safcec foi enfático com os construtores brasileiros. "Estejam preparados, pois há entidades de classe com experiência internacional especializadas em assessorar sindicatos locais para promover paralisações de operários que trabalham nas obras dos estádios da Copa", afirmou Langenhoven. "Isso aconteceu aqui na África do Sul e pode se repetir no Brasil." Para ele, a melhor solução seria o fechamento de acordos coletivos preliminares para cada uma das obras, isoladamente.
As semelhanças com o Brasil tornam a África do Sul uma referência obrigatória quando se trata dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Trata-se, afinal, de uma realidade mais próxima do que, por exemplo, a da Alemanha, que promoveu o último campeonato mundial, em 2006. As diferenças, entretanto, talvez nos permitam sonhar mais alto. Começam pela extensão territorial (8,5 milhões de km2 brasileiros contra 1,2 milhão de km2 sul-africanos) e passam pelo contingente populacional e o tamanho da economia - o PIB da África do Sul corresponde a menos de 30% do brasileiro e a população é um pouco maior do que a do Estado de São Paulo.
As discrepâncias se acentuam nos conflitos raciais que ainda assolam o país africano, nos 11 idiomas oficiais que dificultam a plena integração nacional e no estrago deixado pela crise financeira internacional no biênio 2008/2009. Em todos esses quesitos, a vantagem brasileira é evidente. Mas, assim como no futebol, ninguém ganha nada na véspera. O Brasil tem muito a aprender com os erros e acertos da África do Sul.